quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Memória da primeira infância

Quando bem pequena eu vivia distante do mundo que conheço hoje, social e culturalmente.

Minhas memórias são bem falhas, mas há coisas que não passam.

Não passa a imagem da minha família reunida na minha vó aos domingos, não passa o amor e cuidado que minha vó e vô tinham por mim, os maternos porque os paternos não conheci, morreram meu pai ainda muito jovem.

Eu lembro bem de dormir em um berço no quarto dos meus pais até os 6 anos quando herdei a cama da minha bisa, que meu irmão, 4 anos mais velho apenas, dormia sozinho na sala, tinha medo e corria para o berço de madrugada, ali, bem apertados dormíamos o resto da noite.

Mas também, pudera não ter medo, nossa pequena casa era fria, tenho essa recordação, era há época uma roça comparado a hoje, a casa de teto de madeira e telha colonial, era muito antiga, tinha muitos ruídos, ela toda trincava... Nossa infância foi rodeada de fantasmas.

Lembro, dessa forma, dos pesadelos que tive nessa casa que vivi até os 8 anos e poucos, foram os mesmos que perpetuaram até a adolescência, naquele mesmo quintal deserto e silencioso e frio, com dinossauros famintos que destruíam tudo pela frente a disco voadores que nos sequestravam...

Minha infância tinha um avô comprometido em me fazer mais do que tinha feito por qualquer criança antes, era pipoca doce do Seu Lalaia quase todo fim de tarde, era picolé Kibon e/ou Elma Chips na padaria em dia de domingo, não todos claro, mas frequentemente. Vôvô Thiago comprou meu primeiro "cavalo", como ele chamava a bicicleta, era menor que eu, tava quebrada e sem pintura, mas ele concertou e pintou com a tinta que sobrou da pintura das janelas, um verde bandeira. Linda! Me ensinou a andar nela, era aposentado, meu pai trabalhava de domingo a domingo no bar, e minha mãe cozinhava para o bar.

Meu vô e minha vó tinham todo o tempo e ainda saúde para dedicar a mim, a caçula, quem veio depois não teve a mesma sorte, eles adoeceram e partiram cedo.

Vóvó Odair, meu grande e eterno amor, me ensinou a amar antes de qualquer outra coisa, me dava carinho sem precisar de colo e beijo (apesar de ter colo e abraço e beijos porque fui uma criança assim e sou assim até hoje), era no olhar, na atenção, no cuidado, na carne assada com macarrão, no biscoito sequilhos na biscoiteira de plástico que imitava cristal, no Mineirinho gelado com frango assado no domingo, nas longas caminhadas de Vista Alegre até o Barracão para ver a lojinha, comprar coisas de decoração para a sua casa, eu ajudava escolher, e na semana de pagamento da sua aposentadoria de salário mínimo da déc. de 90, ela me dava um brinquedo ou uma roupa. Nunca esqueço da minha euforia no dia que caminhamos os 30/40min de caminhada em estrada de chão até o Barracão para ver se o fogão com panelinhas ainda estava lá para eu ganhar... Ele era para boneca tipo barbie, pequeno e de plástico, nada abria ou tinha alguma funcionalidade como os de hoje, mas era o máximo, chegamos lá e tinha, não mais da cor que eu queria, só tinha verde, foi verde mesmo...

Minha primeira infância teve mato, quintal, plantação, árvore de fruta, árvore de subir, coco no mato com direito a saber qual era a folha do pé de batata e qual era a folha de ortiga para não correr risco, teve vara de goiaba e de amora, sempre a posto, teve espaço para correr muito e lugar para se esconder.

Minha infância tinha um pai que me colocava na cama para dormir, se ajoelhava ao lado e rezava o pai nosso e ave maria, para me ensinar e eu conseguir dormir bem, me cobria,  me beijava e eu dormia, todo dia até a adolescência...sempre ele, nunca minha mãe, que estava até a nuca de trabalho na cozinha. Teve um pai que levava coca-cola de garrafa d vidro em dia de domingo para almoçarmos juntos, único dia que almoçava conosco. Que me lambia para me provocar, com cheiro de cigarro e cerveja, que me fazia chia. Também teve Katina número 42 voadora, puxão de orelha para chamar as pessoas de Senhor/a, e castigo se falasse algum palavrão. Minha memória de infância com pai tinha Mazzaropi, Jornal Nacional, bolo de chocolate e pizza de liquidificador, com muita rabanada frita e quentinha, mas pouca conversa e um cado de medo.

Minha infância tem memória de mãe arteira, que faz árvore de natal de garrafa pet e móveis de boneca com palitinho, caixa de fósforo, papelão e tudo que lhe permitia a imaginação. Tem bolo de aipim, tem muitos dedos ralados para ralar coco e aipim, tem muito suor e sangue de mãe. Pernas com varizes que saltam e doem, em pé no fogão, a pé carregando peso de compra. Tem desenho feito a mão, tem lição sem ter escola, mamãe me ensinou os primeiros passos de ler e escrever para me colocar logo na escola pública, iniciar a alfabetização aos 6 anos.

Minha infância tem brizolão, tem sopa e macarrão com ovo, tem soninho no colchonete no chão, tem um mundo de descobertas num pátio grandão, tem aula o dia inteiro, de artes e brincadeira. Tem 3 refeições fora de casa, às vezes 4. Doce de leite na colher. Laranja partida em quatro. Tem fila indiana do menor para o maior para entrar no refeitório, tem enfermeira na escola, tem formação para o hino nacional. Tem uniforme amarelo e azul. Tem piolhos, muitos. Colega de sala que expulsa lombrigas, tem. Muita trancinha com alfazema.

Minha infância, a primeira, foi rica demais, na diversidade de cuidados. Eu quero lembrar e dizer mais sobre ela... fica em aberto.




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